Acordei num lugar onde só se falava iídishe.
Abaixo da janela, uma fileira de fuscas coloridos estacionados.
No rádio, Secos & Molhados.
A cacharrel cor de laranja brigava com meu pescoço.
Desci.
Na rua, um cheiro de vareniques invadia a esquina lotada de senhores com chapéu na cabeça e ternos surrados.
Os sotaques se misturavam num novo idioma. Ninguém ouvia ninguém e todos se entendiam numa gritaria harmônica.
A poucos metros, um restaurante que da Europa emprestava o nome. Logo na frente, no balcão, um grupo se servia de pepino azedo, hering e vodca. No fundo, a jogatina mergulhava na fumaça dos cigarros e dos charutos. Do outro lado, numa das mesas, alguém vendia canetas esferográficas baratas e gilete para o outro que dormia sobre o jornal de ontem.
Olhei para os meus pés e as botas ortopédicas me levaram até a outra esquina.
Dali, as palmeiras da faculdade balançavam ao sabor do vento que varria a porta do Santa Inês e apontava para o arco da Casa do Povo.
Um grego passou equilibrando um enorme bolo branco. Esbarrou no sapateiro português, das mãos eternamente cobertas de graxa. Não ouvi o xingamento. Ele corria para comprar linha e agulha no turquinho.
Atravessei a Amazonas.
No seu José, peguei um beigale. Sentei na soleira da porta.
As crianças passavam sem pressa. Algumas de uniforme, outras descalças e outras de kipá.
Os pássaros já migravam para o Jardim da Luz.
O sol foi embora.
Acordei num lugar onde não se falava iídishe.


