sexta-feira, 30 de junho de 2017

Bonra

Quando fecho os olhos,
um traço de lembrança,
fiapo de memória.
Só um fiozinho de luz,
um Jardim da Luz.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Palito de fósforo

O cheiro do palito de fósforo que acabou de queimar.
O gergelim com sal que caiu do beigale.
O sol do inverno que, sutilmente, aquece as cores da rua.
O verso cúmplice e suave da canção de Simon e Garfunkel.
O retorno para um passado que não vivi nas linhas de I. B. Singer.
O calor infantil do cobertor.
O café com leite.
O arroz com feijão.
O movimento que a mão faz quando desenho.
O final de tarde.
O traço.
O traço e o silêncio.
Só o traço e o silêncio.
O silêncio.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Garoa

A garoa fina.
O silêncio entre os sons.
A fresta que é espaço
onde penetra saudade.
A tinta da esferográfica
sobre o papel.
A música que é sussurro.
A luz que aparece
só para destacar a sombra.
Um segundo,
um quase nada.
Instante que o pingo da garoa
toca a pele.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Lusco-fusco

Gosto do lusco-fusco.
Da expressão, das palavras,
do jeito que combinam,
encaixam, conversam.

Gosto do momento.
Do não-dia,
da não-noite.
Da transição.
Do que não deixou de ser,
do que ainda não se tornou.

Gosto da quase ausência,
do toque quase intangível.
Do estado que não é físico,
de seu quase movimento,
de sua quase imobilidade.

Gosto daquilo que não é zero
e, tampouco, é um.
Da cor da luz que não nasceu,
e que insiste em morrer.

Gosto do semi-imanente
que espreita a fresta
da fina lâmina da existência.
Semitranscendência.

Gosto do lusco-fusco
porque é,
porque não é.


domingo, 4 de junho de 2017

O passaporte do meu avô

Enviei o passaporte do meu avô
para a Polônia.
Foi sozinho,
insólita viagem de retorno.

Voltou à sua terra natal,
sem dono, sem sonhos.
Levou consigo a minha fantasia,
o meu próprio sonho fantástico e bobo.

Quem não sonha com bobagens?!
O meu sonho é simples:
encontrar numa esquina qualquer –
pode ser Varsóvia, Nova York ou São Paulo,
de preferência num boteco –,
com Isaac Bashevis Singer.

Perguntaria em iídiche, é claro,
se ele poderia contar
uma história para mim.

Uma daquelas de dibuk
ou de algo estranho que aconteceu
num pequeno shtetl da Europa Oriental.

O convidaria para sentar naquele boteco,
pediria uma média com pão na chapa.

Ele me contaria em iídiche, é claro,
sobre um tal Gimpel e depois sobre
uma mulher, Teibele, e seu demônio.
Eu anotaria tudo em iídiche, é claro.

A sua pronúncia seria a mesma dos meus avós.
Aquela língua que eu não compreendia nada
e entendia tudo ao mesmo tempo.

Já quase na hora do almoço,
minhas anotações preencheriam
mais de dois cadernos.

Me contaria dos meus amigos
e dos meus antepassados.
Falaria da sogra da irmã do vizinho de um outro amigo,
e faria com que invisíveis galhos de uma enorme árvore genealógica
cruzassem com a minha própria origem.

De alguma forma, éramos parentes,
afinal o sobrenome da minha avó também é Singer.

Sairíamos do bar.
Estaríamos no Bom Retiro, 1973.
Quando todos falavam em iídiche na rua.
Pararíamos no seu José e comeríamos beigale.

Meus avós, que passariam por lá,
nos convidariam para o almoço.
Serviriam varenikes e vodka.
Sentiríamos o cheiro que vinha da cozinha...
bolo de mel.

Lembrariam dos conhecidos da Polônia.
Ririam, chorariam e se abraçariam.
Meus cadernos de anotações sumiriam,
meus avós sumiriam.
Isaac Bashevis Singer,
da porta me acenaria em despedida.
Daria uma piscadela e diria:
“– Zai gezunt!” – sumiria também.

Atordoado e desolado,
tentaria correr.
Mas, nestes sonhos, nestas horas,
a gente não sai do lugar.

Acordei.
Lembrei do passaporte do meu avô.
Pesquisei no Google para onde o enviei, em Varsóvia.

Fica a pouquíssimas quadras da rua Krochmalna...
a rua que Isaac Bashevis Singer morou.