sábado, 22 de dezembro de 2018

Microconto de um judeu que adora o Natal

Cinco anos.
Na tevê, vejo que o Papai Noel pousará no Parque do Ibirapuera no próximo domingo e distribuirá presentes.
Na tarde seguinte, em profundo êxtase, corro para contar a boa nova para os meus colegas da escola.
S., o mais sabido da turma, com dedo em riste me avisa: “Papai Noel não existe! E ainda por cima você é judeu, não tem nada a ver com isso!”. Fiquei quieto, inerte, feito uma estátua do Jardim da Luz que tanto adorava. Refleti por alguns segundos e cheguei à óbvia conclusão de que o bom velhinho existia sim, tinha visto pelo menos uns quatro deles distribuindo papelzinhos em portas de lojas da rua José Paulino naquela mesma manhã.
Durante muito tempo, acreditei na sua existência, apesar de nunca ter ganhado nenhum presente de Natal; afinal, como S. me alertou, sou judeu e não tinha nada a ver com isso...

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O porto

O porto.
Destino final
de caminhos interrompidos.
Testemunha inerte
dos olhares perdidos
e bagagens cansadas,
das línguas indecifráveis,
dos casacos e sonhos poídos,
dos cheiros dos medos
e das esperanças distantes.

O porto,
das chegadas e partidas.
Chão sob sapatos rotos
e amores solitários.
Último ponto entre
ali e aqui.
Tênue aresta
das faces que,
pouco a pouco,
se afastam.

O porto,
que agora é porta,
abertura para coisas pequenas, comezinhas,
que as intangíveis geografias
insistem em nos roubar.
Mas insistentes que somos,
teimamos em desembarcar.