domingo, 14 de janeiro de 2018

Ele não vai embora...

Houve um tempo,
que o meu sapato era uma bota ortopédica branca,
os meus shorts eram de helanca azul,
a minha capa de chuva era de nylon cinza
e uma boina do mesmo tecido a acompanhava.

Houve um tempo,
que eu não gostava de comer,
que era fascinado por sucos artificiais cor-de-rosa,
que escutava, a revelia dos meus ouvidos,
de Warderley Cardoso a Odair José
no enorme rádio verde da vizinha.

Houve um tempo,
que eu pilotava uma bicicleta vermelha com rodinhas,
tinha um carrinho roxo com janelas amarelas,
um Topo Gigio de camisa listrada em azul e vermelho,
que eu jurava estar vivo e que conversava comigo.

Houve um tempo,
que eu tinha uma vitrola cor de laranja,
nela ouvia histórias mágicas em disquinhos coloridos,
e também Hey Jude e Yellow Submarine.

Houve um tempo,
que a minha televisão era em preto e branco,
nela assistia os Monkees
e tinha certeza absoluta que enxergava as cores de suas roupas.

Houve um tempo,
que o beigale que eu comia
era de um homem bigodudo que vendia numa cesta bege de vime.
Às oito da manhã, assim que chegava dizia:
“O beigaleiro vai embora! O beigaleiro vai embora!”
Às cinco da tarde, ele ali estava e dizia:
“O beigaleiro vai embora! O beigaleiro vai embora!”

Houve um tempo,
em que eu não tinha a menor ideia do que era o tempo.
E é para este tempo policromático que eu gosto de voltar,
ficar ali apenas ouvindo que o beigaleiro nunca vai embora.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Quando o sol se encontrar com a lua

Quando o sol se encontrar com a lua
e a chuva, que não para,
molhar meus sonhos,
acordarei com as plantas regadas
e as frases por fazer;
desenharei janelas abertas
para ver o ar entrar;
pensarei nas histórias que não fiz;
escreverei recados só para lembrar
o sol de seu encontro com a lua.