Cinco? Seis? Sete anos no máximo.
Passamos pela banca de jornal.
Aquela na frente da padaria.
Quase na esquina da Afonso Pena com a Guarani.
Outro fascículo com brinde.
Tubos de ensaio e vidrinhos com substâncias coloridas.
Cinco cruzeiros é caro?
Depende para quê.
Mas é caro?!
Por que você quer saber?
Continuamos a caminhada.
Não respondi.
Usava a bota branca ortopédica.
Achava bonita.
Na vitrine da papelaria Três Rios,
aquela caixa metálica com lápis de cor.
Acho que tinha sete mil e quatrocentos lápis lá dentro.
E cinquenta cruzeiros, é caro?
Eu acho que sim... por quê?
Usava calça vermelha com mancha branca na altura do bolso da frente.
Culpa de um chocolate que guardei um dia,
na primeira vez que fui ao cinema.
Gostava tanto de chocolate branco, que não era para comer na hora,
tinha de guardar para mais tarde.
Não respondi.
Encontramos muita gente pelo caminho.
Falavam em iídishe.
Eu olhava para cima e nada entendia.
A garoa fina inundava os cílios dos meus olhos.
Usava capa azul.
Entramos na loja do sapateiro português.
Aquele da graxa eterna impregnada nos dedos.
Saímos com um par de sapatos embrulhados em jornal.
Passamos por lugares que de tanto passar eram os móveis da minha casa.
Mais gente.
Mais iídishe.
Compramos beigale.
Por que é tão duro?
Porque sim! Mas você não gosta?
Gosto porque tem sal. É bom comer sal.
Eu também gosto.
Eram tantos fuscas e kombis.
E pombas, muitas pombas também.
Estou cansado!
Falta pouco.
Eram poucas ruas, meia dúzia talvez.
Parecia o mundo inteiro.
Era o mundo inteiro.