segunda-feira, 30 de abril de 2018

Em casa

Entrei em casa.
Abri a tênue porta
que liga sotaques a cheiro
de vareniques e vodca.
Imediatamente, ouvi o iídiche.
Palavras soltas sem sentido imediato.
Quando se juntam me convidam
para uma suave dança,
sem tempo, sem lugar.
Sou par neste ritmo contínuo.
menino, de mãos dadas com os avós,
ali no anteontem das esquinas
dos que desconhecem futuros e,
tentam, em vão, esquecer passados.
Ouvir o iídiche é ter
a certeza dos risos de piadas cotidianas,
a comoção das preces sussurradas
e o espanto das verdades camufladas de filosofias.
Ouvir o iídiche é estar em casa,
num lugar sem lugar, num tempo sem tempo.
Ouvir o iídiche é cheiro de vareniques
e sotaque de vodca.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A ficha caiu

(absolutamente baseado em fatos reais)

Meados dos anos 1990.
Dia 1
Mudamos de casa e o número do nosso telefone fixo mudou também.
Celulares eram coisas raras nestes tempos e podíamos ficar dias sem telefone até resolverem instalar a nova linha.
Dia 2
O novo telefone toca, L. atende e ouve do outro lado:
– Olha, ligaram daí e não deu tempo de atender. Estou retornando.
– Ninguém ligou para você – L. retrucou secamente – aliás, como você sabe que ligaram daqui da minha casa?
– O meu celular tem um visorzinho que mostra o número de quem ligou – J. responde constrangida.
– Ah, tá bom, tá bom – L. sem entender nada e desligando – tchau!
Dia 6
Trim, trim. L. atende e mais uma vez ouve:
– Olha – J. pisando em ovos – ligaram novamente daí da sua casa para o meu celular... 
– Você tá louca?! – L. indignada – Só tem eu aqui em casa e nem toquei no telefone.
– Mas meu celular mostra o número! Qual o seu nome?
– L. por quê? Pra que você quer saber? E qual o seu?
– J.
L. desliga abruptamente o telefone.
Dia 7
O telefone celular de J. começa a vibrar. É aquele número de novo. Desta vez ela não vai deixar passar; pega o aparelho com faca nos dentes e luvas de boxe nas mãos:
– Alô!
– Oi J., tudo bem?
Silêncio sepulcral do outro lado da linha.
– J. você tá aí? – L. insiste – Não tô te ouvindo. Alô, J. alô, alô...
– Então é você? – J. volta ao aparelho atônita.
– Claro! Quem você pensou que fosse?
A ficha caiu... e para ambas. J. e L. são irmãs. Ah! E têm vozes praticamente idênticas.
J. e L. não gostam muito de máquinas. Sempre optaram pelo analógico em tudo. Preferem lápis a lapiseira; controle remoto nem pensar. Trocar de aparelho celular? Uma tortura ter de aprender tudo de novo. Tudo aquilo que tenha botões, e que não seja roupa, as perturba.
Na semana passada, havia uma ligação perdida no aparelho de J.:
– Olha, ligaram daí e não deu tempo de atender. Estou retornando...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Doce

Sob o céu de brigadeiro,
queria mesmo era bolo formigueiro.
Nem um, nem outro.
O sol desapareceu,
meia-lua com manteiga comeu.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O diário

Se tem uma coisa que sempre quis ler – na íntegra – foi o diário dela. Quando nos casamos, um monte de caixas velhas e desiguais abarrotaram o meu armário. “Olha, você quase não tem roupa e eu preciso de espaço...”, o que eu poderia dizer? “Só que nem pense em abrir qualquer uma dessas caixas!”, disse com um sorriso que exibia faca nos dentes. Tive de me contentar com duas gavetas e menos de um quarto de cabides. O tempo foi passando e diversas vezes a vi consultando os cadernos. Uma espécie de Google da vida dela. Se queria lembrar de quando a amiga “x” ofendeu a amiga “y” ou da falta de companheirismo de “z” em determinada viagem, lá estava ela deitada sobre a cama com uma dezena de cadernos abertos numa pesquisa de fazer inveja a qualquer acadêmico. O problema é que a pesquisa inicial a levava a ler outras coisas e quando percebia já havia passado metade do dia redesvendando a sua pré-adolescência. Uma Guerra e Paz paulistana da década de 1980. Escrevi acima que gostaria de ler na íntegra, pois, sim, esporadicamente ela libera alguns trechos previamente analisados. Tenho a clara impressão de que a ditadura já liberou mais trechos do que ela para mim. Fazer o quê?! Normalmente são passagens sem graça, cores em tons pasteis. A leitura é sempre acompanhada – vigiada – de perto, se faço menção ao mínimo gesto de virar uma página, imediatamente sua mão cai tal qual bigorna sobre o caderno. Ela pede que eu me retire e neste meu período de ausência imagino que ela vai emitir uma guia para eu pagar no banco e carimbar em quatro vias e só assim liberar o resto da leitura. Mas nem sempre sou chamado de volta e a leitura para naquele ponto. O máximo de emoção que consegui arrancar do diário foi o seu amor platônico por um menino da segunda série do primário. E a maior proeza foi conseguir ler, quase à base de suborno, a passagem de quando nos conhecemos. Até hoje acho que ela forjou as páginas já sabendo de antemão de que um dia teria de liberar a leitura para mim. As páginas reais devem estar escondidas em um diário ainda mais secreto, guardado fora da minha casa. O trecho não traz nada, é insípido, parece mais um boletim de ocorrência do que o início de uma história de amor. Mas de uns tempos para cá, uma ficha caiu. Notei que o número de caixas jamais cresceu desde o dia que entraram aqui. Pensei que talvez ela passou dos cadernos para o computador, mas nunca a vi digitando nada que não fosse trabalho. E, realmente, nunca a vi escrevendo nada em caderno algum. “Ué, você parou de escrever o seu diário?”, deu de ombros e me respondeu com a naturalidade de uma escovação de dentes “Depois que fomos morar juntos não quis mais escrever...”, saiu andando, sem me dar chance de continuar a conversa. De alguma forma acho que ela tem feito de mim nestes anos todos uma espécie de “seu diário”.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Fake memories

Sempre pude me orgulhar da minha memória. Desde pequeno, guardava na cabeça os fatos e as situações em que estava presente. Podia ser qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Números de telefone, era só discar – isso mesmo, antes a gente discava no aparelho –, e pronto! Estava arquivado. Datas e aniversários, confesso, não eram o meu forte.
Nos cinco anos da faculdade, só um mísero caderno, no qual anotava o estritamente necessário, o resto confiava à minha memória. Uma das poucas coisas que registrei foi uma sugestão de ar condicionado natural milenar presente até hoje em casas do Irã. Ainda me lembro da aula e até da minha anotação no caderno. Gostava mesmo era de prestar atenção nos pequenos detalhes. Da entonação de voz dos professores à quantidade de cigarros que eles fumavam em plena sala de aula. Numa delas, de quase duas horas, um professor fumou onze cigarros; acendia um no outro.
Tudo, absolutamente tudo, era combustível para a minha memória. Não fazia de propósito, simplesmente guardava as coisas, fossem elas importantes ou não. Com o tempo, essa minha habilidade ganhou notoriedade entre os amigos. No início, os mais próximos vinham apenas conferir algum fato ou dúvida. Coisas simples: se fulano chegou a ir com a gente para um show ou se a tal moça do oitavo era do décimo ou do quinto andar. Eu era uma espécie de caderninho de anotações ambulante para eles. Depois, virei um pendrive, o qual podia ser conectado, presencialmente, é claro, a qualquer história que achavam que eu havia participado. De jogos de futebol a pendências, como uma conta de pizzaria em aberto e que até hoje não havia sido paga. Finalmente, percebi que fui elevado à condição de nuvem. Não precisava mais estar presente. Era convocado a qualquer momento e em qualquer lugar do planeta. Certa madrugada, recebi uma mensagem de um amigo que estava em reunião na Austrália. Queria lembrar, a qualquer custo, porque que acabaram repentinamente com a sua própria festa de aniversário de sete anos e nem esperaram apagar as velinhas. Segundo ele, era importantíssimo saber disso para aquela reunião. Era assim, confiavam mais em mim para lembrar da vida deles.
Ultimamente, notei que tenho falhado um pouquinho. Um amigo me ligou e conversa vai, conversa vem, lembrei-me de uma viagem em que o seu carro quebrou e voltamos todos para casa de guincho, foi uma aventura! Ele não só “se lembrou”, como disse quem foi dentro do carro e quem foi na cabine do guincho. Ao chegar em casa, toda a história veio à tona na minha cabeça. Além dele não ter feito esta viagem, ele nem sequer tinha carro na época. Mas quem vai duvidar da minha memória? A partir daquele dia, tenho lembrado de tantos outros jogos que assistimos, de tantas outras festas que entramos sem ter sido convidados e até de provas que colamos juntos. Resolvi não só trocar fatos como inventar histórias bacanas. Notei que resgatar coisas interessantes do passado deixa as pessoas mais felizes e leves... alto astral de verdade! Afinal, não dizem por aí que recordar é viver?
Mas, do que estávamos falando, mesmo?