quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Bucólicas, urbanas...

Ao cair da tarde,
o vento, indiferente,
chacoalha o tempo e as folhas.
O minuto congela o som do apito da fábrica.
E a chuva, que não tem nada com isso,
cai como cortina reveladora
de um sol mansinho, que surge inesperado.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Frestas

Em camadas sobrepostas de histórias,
o terraço da vida recebe a brisa,
que, inconstante, atravessa o tangível.

Abrem-se frestas entre inícios e fins.
A luz, feito bandido, invade como fios,
e recorta as sombras.

Fragmentos achatados do tempo,
camadas de história.
Memória.


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Bonra

Quando fecho os olhos,
um traço de lembrança,
fiapo de memória.
Só um fiozinho de luz,
um Jardim da Luz.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Palito de fósforo

O cheiro do palito de fósforo que acabou de queimar.
O gergelim com sal que caiu do beigale.
O sol do inverno que, sutilmente, aquece as cores da rua.
O verso cúmplice e suave da canção de Simon e Garfunkel.
O retorno para um passado que não vivi nas linhas de I. B. Singer.
O calor infantil do cobertor.
O café com leite.
O arroz com feijão.
O movimento que a mão faz quando desenho.
O final de tarde.
O traço.
O traço e o silêncio.
Só o traço e o silêncio.
O silêncio.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Garoa

A garoa fina.
O silêncio entre os sons.
A fresta que é espaço
onde penetra saudade.
A tinta da esferográfica
sobre o papel.
A música que é sussurro.
A luz que aparece
só para destacar a sombra.
Um segundo,
um quase nada.
Instante que o pingo da garoa
toca a pele.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Lusco-fusco

Gosto do lusco-fusco.
Da expressão, das palavras,
do jeito que combinam,
encaixam, conversam.

Gosto do momento.
Do não-dia,
da não-noite.
Da transição.
Do que não deixou de ser,
do que ainda não se tornou.

Gosto da quase ausência,
do toque quase intangível.
Do estado que não é físico,
de seu quase movimento,
de sua quase imobilidade.

Gosto daquilo que não é zero
e, tampouco, é um.
Da cor da luz que não nasceu,
e que insiste em morrer.

Gosto do semi-imanente
que espreita a fresta
da fina lâmina da existência.
Semitranscendência.

Gosto do lusco-fusco
porque é,
porque não é.


domingo, 4 de junho de 2017

O passaporte do meu avô

Enviei o passaporte do meu avô
para a Polônia.
Foi sozinho,
insólita viagem de retorno.

Voltou à sua terra natal,
sem dono, sem sonhos.
Levou consigo a minha fantasia,
o meu próprio sonho fantástico e bobo.

Quem não sonha com bobagens?!
O meu sonho é simples:
encontrar numa esquina qualquer –
pode ser Varsóvia, Nova York ou São Paulo,
de preferência num boteco –,
com Isaac Bashevis Singer.

Perguntaria em iídiche, é claro,
se ele poderia contar
uma história para mim.

Uma daquelas de dibuk
ou de algo estranho que aconteceu
num pequeno shtetl da Europa Oriental.

O convidaria para sentar naquele boteco,
pediria uma média com pão na chapa.

Ele me contaria em iídiche, é claro,
sobre um tal Gimpel e depois sobre
uma mulher, Teibele, e seu demônio.
Eu anotaria tudo em iídiche, é claro.

A sua pronúncia seria a mesma dos meus avós.
Aquela língua que eu não compreendia nada
e entendia tudo ao mesmo tempo.

Já quase na hora do almoço,
minhas anotações preencheriam
mais de dois cadernos.

Me contaria dos meus amigos
e dos meus antepassados.
Falaria da sogra da irmã do vizinho de um outro amigo,
e faria com que invisíveis galhos de uma enorme árvore genealógica
cruzassem com a minha própria origem.

De alguma forma, éramos parentes,
afinal o sobrenome da minha avó também é Singer.

Sairíamos do bar.
Estaríamos no Bom Retiro, 1973.
Quando todos falavam em iídiche na rua.
Pararíamos no seu José e comeríamos beigale.

Meus avós, que passariam por lá,
nos convidariam para o almoço.
Serviriam varenikes e vodka.
Sentiríamos o cheiro que vinha da cozinha...
bolo de mel.

Lembrariam dos conhecidos da Polônia.
Ririam, chorariam e se abraçariam.
Meus cadernos de anotações sumiriam,
meus avós sumiriam.
Isaac Bashevis Singer,
da porta me acenaria em despedida.
Daria uma piscadela e diria:
“– Zai gezunt!” – sumiria também.

Atordoado e desolado,
tentaria correr.
Mas, nestes sonhos, nestas horas,
a gente não sai do lugar.

Acordei.
Lembrei do passaporte do meu avô.
Pesquisei no Google para onde o enviei, em Varsóvia.

Fica a pouquíssimas quadras da rua Krochmalna...
a rua que Isaac Bashevis Singer morou.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

O fascínio da fumaça

Sempre me fascinou
a contemplação da fumaça das velas.
Fio da chama
que conecta um aqui a um ali
que não sei onde fica.
Existe.
Dança, muda de direção.
Ágil e altiva,
percorre caminhos improváveis.
Some.
Da chama, elegante, ressurge.
Persiste.
Leve,
vem e vai,
diáfana,
transpassa mundos e tempos,
em curvas que driblam o olhar.
Insiste.
Quase cor, quase quente, quase substância.
Resiste.
A fumaça de uma vela
é aquilo que melhor traduz
a palavra momento.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Procuro nos olhares

Procuro nos olhares
a infância perene.
Na tocaia,
na surdina,
à espreita,
espero uma frase, talvez uma palavra,
que, num bote certeiro,
abocanhe minha memória,
numa torrente de risos
e libere sonhos que já tivemos.

Nos corredores infindáveis das lembranças,
os pensamentos se entrelaçam
como fios que conduzem para lugares
que já estivemos.
Corremos.
Corremos atrás de bolas.
Corremos dos outros.
Corremos de nós mesmos.
Corremos porque precisamos correr.
O cabelo está molhado,
o suor retilíneo pinga da testa.
Esfolamos joelhos já esfolados.

Só o agora é que vale.
É atalho entre aqui e antes,
depois e ali.
O tempo perde completamente o sentido.
A gente nem liga,
só respira.

Procuro nos olhares.



Sou livre?

A porta fecha,
o espaço encolhe,
o tempo acelera,
a temperatura aumenta o frio que corta,
a luz apaga,
uma partícula de poeira atravessa a penumbra,
um ruído arranha o ar,
o ar acaba,
o gesto endurece,
o pensamento, que é fluxo, escorre,
e não há mais porta.


Um segundo

Um segundo de olho aberto.
Na cama, semidesperto.
Ausência.
Sombra de tempo,
quase imanência.

Toco de leve o lençol,
substancio o instante.
Presença.
Cheiro de tempo,
perfume que adensa.



Ao mesmo tempo

A lua de dia.
O sol com a chuva.
A cidade em silêncio.
A cabeça parada,
pensamento em movimento.



A gente, o que é?

As coisas que estão aqui.
Os sons que escuto todos os dias.
A cadeira que me espera à mesa.
A rua, que em curva, me leva para o mesmo lugar.
O sol que bate no chão do quarto.
O café que ainda não fiz e farei.
As plantas que rego pela manhã.
O lápis que aponto e novamente aponto.
O instante que vem depois do instante.
O instante não é mais.
A gente, o que é?