quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Questionamentos

Entra ano, sai ano e algumas perguntas permanecem sem respostas.
Onde foi parar o carrinho roxo de janelas amarelas que perdi aos sete anos? Será que foi um delírio infantil ou realmente comi um picolé sabor uva com textura de bala de goma ao voltar da escola? Por que todos os meus all star furam exatamente no mesmo lugar? E por que todas as minhas camisetas furam no mesmo lugar? O que me levou a não gostar mais de bisnagas? Qual o significado do meu sonho recorrente de estar pedalando uma bicicleta gigante, que cresce e cresce sem parar e me faz acordar invariavelmente assustado? Se o universo é tudo, o que contém este tudo? Papai Noel existe?

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

1976

1976

O passeio. O vazio. 1976.
O espaço que sobra entre as coisas.
Desço. Subo. Procuro.
Procura perene.
A ideia que falta. O tempo. A falta. O intervalo.
A sobra. As coisas.
Um vazio.
O passeio. O espaço. A memória.
O tempo que aumenta. O intervalo que diminui.
A falta de espaço entre as coisas.
Não há falta. Não há nada.

Vou ouvir Belchior.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

De A a Zê

Ó ases!
Que fazeis
ao lado
desses esses e
desses zês
nas minhas frases
desconexas?
Se sois ases mesmo,
encontrai,
no meio desse caminho
de A a Zê,
um descanso,
um oásis.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Beigale

Junte farinha, ovos, óleo, água, gergelim,
uma pitada de sal e outra de saudade.

Misture ruas imaginárias
com personagens reais
e com um pouco de uma língua
que quase não se ouve mais.

Leve ao forno da memória
e deixe o tempo, o tempo, o tempo...


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Desformatar

Forma.
Insatisfeito,
reforma.
Incompreendido,
deforma.
Joga fora a fôrma,
transforma.
E, se ainda assim, contudo,
é continente,
larga.
Seja conteúdo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Fumaça

Etérea serpente,
seu gesto é traço.
Artista sinuosa,
sua tela é espaço.

Efêmero desígnio,
seu movimento transparente
é fascínio.

Qual é a sua graça?
Não me reconhece?
Sou fumaça...


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Canos

Canos
por todo canto.

Canto.
Tentativa contra o desencanto.

Não tem jeito, só desengano.
Por isso, solto, desencano.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Matéria

Aquilo.
Futuro,
ideia, estado gasoso,
escuro.

Aquele.
Passado,
nó, estado sólido,
expirado.

Este.
Presente,
rio, estado líquido,
passa e você nem sente.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Sopa de letras

Cozinha, com zê,
uma coisinha, com um esse,
para você, com cê.

Cozinha é transformação,
com cê-cedilha,
é alquimia cotidiana
do arroz com lentilha.

Faça surgir, então,
sabores cheirosos,
com cê-agá.
Esse será nosso
bê-á-bá.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Distância

A distância do instante.
A distância do movimento.
A distância do caminho.
A distância do tempo.

A distância do olhar.
A distância que apavora.
A distância necessária.
A distância da aurora.

A distância que conjuga.
A distância que separa.
A distância intransitiva.
A distância que apara.

A distância que é véu.
A distância que é neblina.
A distância que envolve.
A distância que aproxima.

A distância da falta.
A distância da dor.
A distância do passado.
A distância do horror.

A distância perene.
A distância fugaz.
A distância incomensurável.
A distância incapaz.

A distância imposta.
A distância relativa.
A distância medida.
A distância viva.

A distância etérea.
A distância ausente.
A distância de si.
A distância que não mente.



quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Pequenas revelações de sonhos infantis

Que o elevador do meu prédio fosse até o subsolo.
Onde eu morava só ia até o térreo.

Ter um all star.
Só ganhava conguinha azul.

Viajar para a Inglaterra.
Até hoje, não sei bem o motivo.
Só ia até Santos.

Viajar de avião.
Fazia parte do sonho anterior.
Só viajava na Kombi do meu avô.

Ter uma televisão colorida.
Sonho realizado na Copa de 74.

Ganhar uma mini-garrafa térmica para a minha lancheira.
Até hoje nada...

Aprender a tocar as inúmeras gaitas de latão que ganhei.
Não achava que aquilo tocava.


Que meus carrinhos durassem para sempre.



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A charrete do meu avô

Com a sua charrete e a égua Margueride,
meu avô, imigrante,
ganhava a vida
como vendedor ambulante.

Quando Margueride
deu à luz,
meu avô,
com a sua lógica peculiar,
de “Margueride Filhe”
o cavalinho resolveu batizar.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Impressões

Uma ruela.
Recorte orgânico
do meio da quadra.
Sussurro.
Quase segredo da paisagem.
Passagem.
Bilhete de ida
para a geografia imprecisa
da minha memória.
E, então, aquele edifício.
Susto.
Grito à beira do precipício
da minha história.
Sob o céu que não escurece:
a fonte e as suas esculturas,
as roupas e as suas cores,
as línguas e as suas estações,
o instante e as minhas impressões.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Releitura

Onírico.
Imagem que flutua.
Irreal.
Distante-próximo.
Atemporal.
Um olhar?
Chagall.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Batuque do desenho

Como sambinha,
começo a batucar
um desenho.
Se é necessidade
ou vício,
não sei.
Faço isso
desde sempre.
Desde o início.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Lugares

Lugar que já fui.
Mensagem incompleta.
É paisagem que flui.

Um ar... um vento...
resíduos de dias,
pedaço de tempo.

Lugar que inventei.
Cenário possível.
Um certo “eu sei”.

A mensagem?
Não sei.
Estou de passagem.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Advérbio

Sobretudo.
Barreira do vento.
Isola o frio,
atenua o inverno do meu sentimento.
Altera minhas ações, minhas palavras,
sobretudo, meu pensamento.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Eu e ela

Cinco? Seis? Sete anos no máximo.
Passamos pela banca de jornal.
Aquela na frente da padaria.
Quase na esquina da Afonso Pena com a Guarani.
Outro fascículo com brinde.
Tubos de ensaio e vidrinhos com substâncias coloridas.
Cinco cruzeiros é caro?
Depende para quê.
Mas é caro?!
Por que você quer saber?
Continuamos a caminhada.
Não respondi.
Usava a bota branca ortopédica.
Achava bonita.
Na vitrine da papelaria Três Rios,
aquela caixa metálica com lápis de cor.
Acho que tinha sete mil e quatrocentos lápis lá dentro.
E cinquenta cruzeiros, é caro?
Eu acho que sim... por quê?
Usava calça vermelha com mancha branca na altura do bolso da frente.
Culpa de um chocolate que guardei um dia,
na primeira vez que fui ao cinema.
Gostava tanto de chocolate branco, que não era para comer na hora,
tinha de guardar para mais tarde.
Não respondi.
Encontramos muita gente pelo caminho.
Falavam em iídishe.
Eu olhava para cima e nada entendia.
A garoa fina inundava os cílios dos meus olhos.
Usava capa azul.
Entramos na loja do sapateiro português.
Aquele da graxa eterna impregnada nos dedos.
Saímos com um par de sapatos embrulhados em jornal.
Passamos por lugares que de tanto passar eram os móveis da minha casa.
Mais gente.
Mais iídishe.
Compramos beigale.
Por que é tão duro?
Porque sim! Mas você não gosta?
Gosto porque tem sal. É bom comer sal.
Eu também gosto.
Eram tantos fuscas e kombis.
E pombas, muitas pombas também.
Estou cansado!
Falta pouco.
Eram poucas ruas, meia dúzia talvez.
Parecia o mundo inteiro.
Era o mundo inteiro.


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Prédio

No prédio,
rocha da cidade.
Meu pensamento procura
nos vãos das janelas,
antigos olhares.
O tempo tropeça 
nos andares.

No prédio,
rocha da cidade.
Meu sentimento rola
pelas escadas,
atropela olhares.
Como incêndio,
invade os andares.

No prédio,
rocha da cidade.
Minha memória é escuta
de portas entreabertas
dos apartamentos dos andares.
História que contém
meus olhares.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Superpoderes

Sonho ficar invisível,
atravessar paredes,
ouvir o inaudível,
ler pensamentos,
reverter o tempo,
reviver momentos.
Prever, em bola de cristal, o futuro,
saber, antecipadamente, quem toca a campainha,
enxergar no escuro.
Ir do sul ao norte
num piscar de olhos,
sem precisar de transporte.
Virar gigante,
com leveza de libélula
e memória de elefante.
Relaxar como gato,
equilibrar, numa só mão,
copo, talher e prato.
Tocar piano, harpa e clarinete.
Ter a precisão e sutileza
da ponta de um alfinete.
Cozinhar arroz sem queimar.
Saber conjugar corretamente
o verbo sonhar.


quinta-feira, 31 de março de 2016

Ortografia

Curva.
Formato de esse.
Esse elemento geométrico
vem e desaparece.
Quase impalpável,
baila, com dois esses, e passa.
Dançarina, com cedilha,
leve fumaça.


terça-feira, 29 de março de 2016

Gotas

A água cai
sob o sol.
Gotas que filtram luz.
Pequenas joias voadoras
que o olhar seduz.




segunda-feira, 21 de março de 2016

Singela prece de um galinheiro

Ó senhor das aves!
Ajude o nosso galinheiro.
É briga e bicada o dia inteiro.
Tem pena voando pra tudo que é lado.
O galo, coitado, está chocado.
Os penudos estão indo com tudo, rompendo até amizade.
Imploro por um pouco de serenidade.
Ó senhor dos galináceos!
Acalme o povo,
desse jeito não vai ter ovo!
Envie bom senso e equilíbrio e,
quem sabe, um pouco de milho.
Pois, olhando daqui do poleiro,
todo mundo é seu filho.
Conceda paz para galos, galinhas e pintinhos também
e para todos os galinheiros, amém.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Vento

Na agenda,
abri uma janela de tempo.
Pequena fresta.
Espaço para entrar o vento,
que espalha papeis, invade pensamentos.
E sai.
Nos atravessa, transparente,
porque é vento.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Triciclo

De triciclo,
giro em intermináveis círculos.
Nesta vida sem geometria,
feita de ciclos.

quinta-feira, 10 de março de 2016

A felicidade

A felicidade está jogada quieta num canto.
É pedaço de cobertor verde, felpudo, sujo e cortado de qualquer jeito.
É comida num pote verde e água em movimento.
É cheiro conhecido que se percebe desde o elevador.
A felicidade é tão inexplicável que só se pode sentir pulando.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Um apito de fábrica

Dezoito horas.
Um apito de fábrica.
Som familiar,
memória presente,
que corta, feito faca afiada,
o barulho perpétuo da cidade.
Uma fresta se abre
numa ínfima janela de tempo.
É silêncio que espalha perfume
e logo evapora.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Óculos

Grau,
medida quase
indecifrável
de uma escala.
Na escada
que o pensamento
sobe degrau a degrau
não se enxerga coisa alguma,
nem com óculos de grau.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sonhei?

Acordei num lugar onde só se falava iídishe.
Abaixo da janela, uma fileira de fuscas coloridos estacionados.
No rádio, Secos & Molhados.
A cacharrel cor de laranja brigava com meu pescoço.
Desci.
Na rua, um cheiro de vareniques invadia a esquina lotada de senhores com chapéu na cabeça e ternos surrados.
Os sotaques se misturavam num novo idioma. Ninguém ouvia ninguém e todos se entendiam numa gritaria harmônica.
A poucos metros, um restaurante que da Europa emprestava o nome. Logo na frente, no balcão, um grupo se servia de pepino azedo, hering e vodca. No fundo, a jogatina mergulhava na fumaça dos cigarros e dos charutos. Do outro lado, numa das mesas, alguém vendia canetas esferográficas baratas e gilete para o outro que dormia sobre o jornal de ontem.
Olhei para os meus pés e as botas ortopédicas me levaram até a outra esquina.
Dali, as palmeiras da faculdade balançavam ao sabor do vento que varria a porta do Santa Inês e apontava para o arco da Casa do Povo.
Um grego passou equilibrando um enorme bolo branco. Esbarrou no sapateiro português, das mãos eternamente cobertas de graxa. Não ouvi o xingamento. Ele corria para comprar linha e agulha no turquinho.
Atravessei a Amazonas.
No seu José, peguei um beigale. Sentei na soleira da porta.
As crianças passavam sem pressa. Algumas de uniforme, outras descalças e outras de kipá.
Os pássaros já migravam para o Jardim da Luz.
O sol foi embora.
Acordei num lugar onde não se falava iídishe.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Mar

Meu olhar
se perde no mar,
perfura o vazio,
encontra o horizonte como um fio.

Meu olhar
é silêncio.
É tênue fio
que conduz ao vazio.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Jogo da memória

Jogo da memória
peças, fragmentos de história.
seus versos ocultam as imagens
que buscam o par.
Movimento giratório,
chance única de lembrar.

Jogo com a memória,
desmonto a história.
Em versos sem pares,
cujas imagens, singulares,
em movimento, quase dança,
revelam o jogo,
a lembrança.