quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os adesivos do Chevette

Dos vários capítulos da mitologia que guarda os segredos de sua vida, “máquinas” é um dos que merece mais atenção. Monstros cheios de tentáculos que insistem em destruí-la, são esfinges prontas a devorá-la. Uma máquina, porém, era exceção à regra: o Chevette branco. Para os mais novos, Chevette foi um dos primores da indústria automotiva nacional, um veículo que daria material para muitos memes, se esses existissem nas décadas de 1970 e 1980.

Ela nutria verdadeira adoração pelo seu Chevettinho branco. Lavava pessoalmente. Falava com ele. Talvez fosse uma espécie de “meu diário móvel”. Quando a conheci, o carro foi o primeiro familiar que me foi apresentado. Carros, para falar a verdade, não são objetos de culto aqui em casa, são simplesmente caixinhas que nos levam de um lugar para o outro. O nosso pobre veículo é mais velho do que muitos dos filhos dos atentos leitores destas pobres linhas. Mas, voltemos ao nosso bólido branco.

Era o último ano de seu curso de pedagogia. Trabalhava de dia em duas escolas e estudava à noite. Não consigo conceber o seu semblante às 22h57, minutos antes do final da última aula. Estaria ela em alguma constelação de Centauro saboreando um chocolate ao leite juntamente com sementes de abóbora? Para ela, que leva a sério a frase “dormir cedo faz bem à saúde”, este horário, pelo menos nos dias de hoje, é quase o dia seguinte.

Ao final de cada dia, caminhava com a sua colega de classe e vizinha até o seu carro e, juntas, voltavam para as suas casas. Naquela quinta-feira de maio, exausta da longa jornada, ela abre o carro. Senta. Atônita fala para amiga: “Mexeram no banco. Está muito mais para trás! Alguém entrou aqui!”. A amiga nem teve tempo de dizer nada quando ela solta mais uma: “Mexeram no espelho também!”. Quando a outra ia começar a falar, ela, indignada, dispara: “Olha! Roubaram todos os adesivos! Como podem fazer isso?! Entram no carro, bagunçam tudo e ainda por cima roubam os os adesivos!”. Enfurecida e resignada, começa a arrumar a posição do banco, empurra-o no limite máximo que este consegue chegar lá na frente, ajeita o espelho e enquanto, sem sucesso, procura a fita cassete do James Taylor, a amiga já abrindo a porta, consegue esboçar um “Acho que esse não é o seu carro!”.

Em disparada, as duas meninas voam a toda velocidade na direção de um outro Chevette branco estacionado metros atrás que, certamente, deveria estar ao alcance da visão por aquele espelhinho retrovisor que ela mal conseguia tocar. Chevettes e outros carros da época vinham acompanhados deste maravilhoso acessório de fábrica: chaves-mestras que abriam de tudo.

O Chevette branco ficou com ela por muitos anos ainda. Entre as muitas idas e vindas ao mecânico, certo dia resolveu vendê-lo. Não suportava mais vê-lo naquele estado. Antes dele ser entregue ao futuro dono, pediu que todos se afastassem. Ficou alguns minutos conversando com o Chevettinho. Voltou, entregou as chaves e levou consigo, no bolso, os adesivos.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Simpris

Aquilo que escapô
foi pras artura e avuô,
num tem mais vorta.
Disconsola, não!
Abre teu coração numa porta.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Ah, o tempo...

Hoje, conheci o tempo.
Implacável, em seu traje metálico.
Estava lá, à espreita.
Sorria para mim.
Cruel, mostrava seus dentes.
insinuava cheiros,
exibia os mesmo lugares e as mesmas esquinas.
Intangível, espetava finas agulhas na minha memória.
Transpirei nostalgia e saudade.
Pois hoje, conheci o tempo.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Desreceita

Por uma porção a mais,
pôr um pouco menos.
Atenção na porção,
senão desproporção.