quinta-feira, 31 de março de 2016

Ortografia

Curva.
Formato de esse.
Esse elemento geométrico
vem e desaparece.
Quase impalpável,
baila, com dois esses, e passa.
Dançarina, com cedilha,
leve fumaça.


terça-feira, 29 de março de 2016

Gotas

A água cai
sob o sol.
Gotas que filtram luz.
Pequenas joias voadoras
que o olhar seduz.




segunda-feira, 21 de março de 2016

Singela prece de um galinheiro

Ó senhor das aves!
Ajude o nosso galinheiro.
É briga e bicada o dia inteiro.
Tem pena voando pra tudo que é lado.
O galo, coitado, está chocado.
Os penudos estão indo com tudo, rompendo até amizade.
Imploro por um pouco de serenidade.
Ó senhor dos galináceos!
Acalme o povo,
desse jeito não vai ter ovo!
Envie bom senso e equilíbrio e,
quem sabe, um pouco de milho.
Pois, olhando daqui do poleiro,
todo mundo é seu filho.
Conceda paz para galos, galinhas e pintinhos também
e para todos os galinheiros, amém.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Vento

Na agenda,
abri uma janela de tempo.
Pequena fresta.
Espaço para entrar o vento,
que espalha papeis, invade pensamentos.
E sai.
Nos atravessa, transparente,
porque é vento.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Triciclo

De triciclo,
giro em intermináveis círculos.
Nesta vida sem geometria,
feita de ciclos.

quinta-feira, 10 de março de 2016

A felicidade

A felicidade está jogada quieta num canto.
É pedaço de cobertor verde, felpudo, sujo e cortado de qualquer jeito.
É comida num pote verde e água em movimento.
É cheiro conhecido que se percebe desde o elevador.
A felicidade é tão inexplicável que só se pode sentir pulando.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Um apito de fábrica

Dezoito horas.
Um apito de fábrica.
Som familiar,
memória presente,
que corta, feito faca afiada,
o barulho perpétuo da cidade.
Uma fresta se abre
numa ínfima janela de tempo.
É silêncio que espalha perfume
e logo evapora.