terça-feira, 29 de setembro de 2015

quase cinquenta

Entro no táxi.
– O senhor, por favor, poderia me levar para a rua perto da...

No elevador, dou passagem a outro senhor e na saída, gentilmente, seguro a porta.
– Boa noite, senhora!

“Senhora”, para a menina do correio.
“Senhor” para o garoto da padaria.
“Senhora” para a moça da bilheteria do cinema.
Excesso de educação?
Não.
Invariavelmente tenho a impressão de ser sempre o mais novo.

Os anos insistiram em passar.
Algumas dores apareceram.
Minha cabeça sempre tem chegado antes dos meus pés.
O filhos estão grandes.
Uns retratos amarelaram.
Lembranças se acumulam, diariamente, em progressão geométrica.

Continuo de tênis, camiseta e bermuda.
Desenhando...
Como nos cinco, nos quinze, nos vinte...

Cinquenta.
Acho que é um número maior do que o meu...
– Não é não, senhor?!
Tamanho GGG.

Abro a porta do elevador.
Tropeço numa moça.
– Desculpa!
– Não foi nada, senhor.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

pensador

pensa.
dor.
pensador.
pensa dor.
dor.
dor mente.
dormente.
mente.
mente ira.
mentira.
ira.
ira quente.
quente.
quente fumaça.

fumaça.


você sabe onde fica o bom retiro?

Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Um ponto equidistante entre as praias de Santos da minha infância
e uma pequena Europa imaginária.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Na esquina entre a Ribeiro de Lima e a Correia de Melo,
onde o iídishe visita o português, regado pela vodca
e pelo cheiro de vareniques que vem daquele Buraco.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Onde os Iankales, os Mechales, as Surales e os Motkes
comem “hering” com pão preto.
Ali mesmo, no centro do barulho das cantinas italianas
com suas massas e suas pizzas.
Onde os gregos cozinham
e o moço que não é mais moço vende seus tecidos.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Um lugar onde se pode viajar
para aquela Europa intangível
através da porta de um restaurante,
onde são servidos aromas e palavras.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Onde o Oriente tangencia o Ocidente,
com seus templos, sinagogas, igrejas
e o coreano faz contas em iídishe,
comendo “beigale”.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Lugar sem lugar,
onde dois que ali nasceram
e nunca se viram,
se encontram para fazer
sinapses emocionaisgeográficas
materializando sua história.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
É logo ali!
Entre o Jardim da Luz e a José Paulino...
é a entrada da sala... da sala de casa.
Ali onde posso falar e vestir o que quiser.
Um pequeno território entre a
Tiradentes e a estrada do mundo todo.
Você sabe onde fica o Bom Retiro?
Pois vou contar:
é logo ali!
Lugar que, inevitavelmente,
volto todas as noites quando fecho os olhos
no exato momento em que
meu sono se transforma em sonho.


qualquer lugar, todo lugar

Santa Fé, Taubaté, Nazaré.
Procurarei por você de ônibus, de barco ou a pé.
Volgogrado, Petrogrado, Belgrado.
Mandarei flores do seu agrado.
Fortaleza, Santa Teresa.
Apenas uma certeza.
Juazeiro, Rio de Janeiro.
Estarei, de alma, inteiro.
Nantes, Londres, Paris.
Há lugar para ser feliz?
Piauí, Gibraltar.
Por aí, com você, em qualquer lugar.


paisagem

Paisagem perene,
desenho do tempo.
Rua fugaz,
pensamento.

Paisagem do tempo,
desenho impreciso.
Passagem, sentimento.

Paisagem sentimento,
desenho perene, 
rua fugaz, 
pensamento.
Passagem do tempo.



tempo

Tempo estranho.
Inverso relógio da história.
Fotografia recuperada da memória.

Tempo indefinido.
Agora. Já. Constante.
Tudo neste instante.

Tempo castigo.
Prisão. Conteúdo adormecido.
Vaga ideia do acontecido.

Tempo sem tempo.
Régua sem escala. Zero, cala.
Nada. Tudo nele não fala.


rabiscos

Rabiscos.
Traços soltos
na ladeira das ideias.

Rabiscos.
Ideias vazias
boiando no ar
dos meus traços.

Rabiscos.
Ladeiras de ar,
vazias
dos meus traços.


a rua

Olhei para rua,
coração leve,
olhos vazios.

Olhei para a rua,
ponto de fuga infinito,
esperança do não acabar.

Olhei para a rua,
mãos vazias,
bolso leve.

Olhei para a rua,
bolso vazio,
sensação do não precisar.

Olhei para a rua,
olhos leves,
coração infinito.


o carrinho da porta da escola...

Vinte minutos para o sinal.
Pelos menos, era o que dizia
o meu cálculo mental.
Na porta da escola, o carrinho!
Nele cabia o mundo inteirinho.
De pipoca-isopor da
embalagem cor-de-rosa
a chiclete com tatuagem
e mil bugigangas,
uma verdadeira miragem.

E este sinal que não tocava!
A minha atenção
agora só passeava.
A aula evaporou,
o universo todo parou.
Na minha cabeça,
um jogo de adivinhar.
O que do carrinho comprar?


Finalmente o sinal disparou,
em disparada também
a turma voou.
No carrinho, todos apinhados
como sardinhas em lata,
lado a lado, esmagados.

A caixinha de surpresa
era o objetivo principal.
Para comprar,
entreguei as moedas
com esforço descomunal.
Enfim, o grande momento do dia:
– Um anel?!

Era o centésimo que vinha.
Pequena decepção invadia.
Agora era esperar
pelo próximo dia.


poesia pequena

Poesia pequena
sem intenção.
Gesto. Ritual de percepção.

Poesia pequena
arquitetura insólita.
Palavra desordenada.
Sentença rabiscada.

Poesia pequena
sem caminho.
Rua discreta.
Passagem secreta.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

no telhado...

Da janela,
o vento e a palmeira.
Movimento.
Da mesa,
o cheiro doce do peixe.
Festa.
Do balcão,
o som e o telhado.
Mistério.

A palmeira?
Insistia em conversar
comigo.
O peixe?
Alegria materializada
numa mesa.
O telhado?
Certeza:
esconderijo de um violinista.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

acordei

Acordei com olhos
de travesseiro.
Naquela hora,
cobertor era
parceiro.

Acordei com sonhos
de malabarista.
Naquela hora,
o chão sob a cama
era rede de proteção
do artista.

Acordei com dúvidas
de não sei o quê.
Naquela hora,
o dia seria misterioso
para mim
e para você.


ponto

No meio do universo?
Pergunta recorrente.
Plano infinito.
Aquele do ponto e da reta,
que começou
não sei onde
e vai para não sei o quê...
Reta? Ponto? Começou? Vai?
E eu?
Onde?
No espaço equidistante
entre dois pontos.
No meio.
Meio?
Pergunta pendular.
Resposta quase tangente,
não encosta.
Quando?
Quem sabe,
em algum ponto
do universo.