domingo, 4 de junho de 2017

O passaporte do meu avô

Enviei o passaporte do meu avô
para a Polônia.
Foi sozinho,
insólita viagem de retorno.

Voltou à sua terra natal,
sem dono, sem sonhos.
Levou consigo a minha fantasia,
o meu próprio sonho fantástico e bobo.

Quem não sonha com bobagens?!
O meu sonho é simples:
encontrar numa esquina qualquer –
pode ser Varsóvia, Nova York ou São Paulo,
de preferência num boteco –,
com Isaac Bashevis Singer.

Perguntaria em iídiche, é claro,
se ele poderia contar
uma história para mim.

Uma daquelas de dibuk
ou de algo estranho que aconteceu
num pequeno shtetl da Europa Oriental.

O convidaria para sentar naquele boteco,
pediria uma média com pão na chapa.

Ele me contaria em iídiche, é claro,
sobre um tal Gimpel e depois sobre
uma mulher, Teibele, e seu demônio.
Eu anotaria tudo em iídiche, é claro.

A sua pronúncia seria a mesma dos meus avós.
Aquela língua que eu não compreendia nada
e entendia tudo ao mesmo tempo.

Já quase na hora do almoço,
minhas anotações preencheriam
mais de dois cadernos.

Me contaria dos meus amigos
e dos meus antepassados.
Falaria da sogra da irmã do vizinho de um outro amigo,
e faria com que invisíveis galhos de uma enorme árvore genealógica
cruzassem com a minha própria origem.

De alguma forma, éramos parentes,
afinal o sobrenome da minha avó também é Singer.

Sairíamos do bar.
Estaríamos no Bom Retiro, 1973.
Quando todos falavam em iídiche na rua.
Pararíamos no seu José e comeríamos beigale.

Meus avós, que passariam por lá,
nos convidariam para o almoço.
Serviriam varenikes e vodka.
Sentiríamos o cheiro que vinha da cozinha...
bolo de mel.

Lembrariam dos conhecidos da Polônia.
Ririam, chorariam e se abraçariam.
Meus cadernos de anotações sumiriam,
meus avós sumiriam.
Isaac Bashevis Singer,
da porta me acenaria em despedida.
Daria uma piscadela e diria:
“– Zai gezunt!” – sumiria também.

Atordoado e desolado,
tentaria correr.
Mas, nestes sonhos, nestas horas,
a gente não sai do lugar.

Acordei.
Lembrei do passaporte do meu avô.
Pesquisei no Google para onde o enviei, em Varsóvia.

Fica a pouquíssimas quadras da rua Krochmalna...
a rua que Isaac Bashevis Singer morou.


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