Estamos juntos há tantos anos que a nossa história é quase uma só. Um dia desses, ela cismou que queria ver aquelas poucas gravações que fizemos no passado – preciso esclarecer que não gosto de ser fotografado ou filmado e por relação direta, não gosto de fotografar também. Talvez, disso eu me arrependerei um dia, num futuro não muito distante quando resolver confirmar se o que a minha memória insiste em me mostrar é realmente aquilo que, de fato, aconteceu –, pediu para que eu fosse numa lojinha escondida num subsolo, entre duas ou três casas, de uma rua perto daqui. “Lá eles fazem qualquer tipo de conversão de vídeo”, disse sorrindo, com a sua habitual credulidade. Sob o sol escaldante do verão das duas da tarde, lá estou descendo e subindo ladeiras com as três fitinhas de vídeo e batendo na porta do “Converte tudo”. Quem me recebe é uma simpática e míope senhora que imediatamente etiquetou as fitas com o meu nome e me devolveu um protocolo. “Em dois ou três dias retornarei para te avisar se deu para converter”. No dia seguinte, ela liga, meio descontente, para avisar que apenas uma delas foi convertida, as outras duas não sabiam nem em que sistema foi gravado (eu tampouco). Lá estou eu, sob aquele mesmo sol das duas da tarde, a caminho. Sou recebido pela mesma simpática míope que mostra as duas fitas que não foram convertidas e me entrega um pacote com a outra e o resultado do trabalho em CD. Volto para casa suando em bicas. Coloco o CD no computador. A primeira imagem é de um passarinho dentro de uma gaiola. Achei estranho, pois é exatamente um tipo de imagem que abomino. A próxima cena é uma estrada vista da janela de um carro, sem som, ninguém aparecia. Depois tudo muda para um bailão, um forró arretado, dentro de uma minúscula casa com muita gente. Muita gente mesmo! Não conheço ninguém. Será que a minha memória queria me pregar uma peça ou será que foi o calor do caminho que derreteu as minhas recordações? Pula para a cena seguinte e o forró dá lugar a um churrasco animadíssimo. Peraí! Sou vegetariano, por que estaria gravando isso aí?! Que vídeo é esse? Mais uma vez, estou sob a fornalha do verão paulistano com a camisa encharcada e o pacote da fitinha na mão. Assistimos juntos, eu e a míope, aos dois conteúdos, o da fita e o do CD. Eram idênticos. A mulher me garantiu que não trocou a minha fitinha com ninguém, me explicou exaustivamente todo o seu sistema de catalogação, desde a chegada do cliente até a devolução do serviço. Ela me garantiu que a fita era minha e que eu descobrisse quem eram aquelas pessoas que agora faziam parte do meu passado sem o meu consentimento. Saí de lá imaginando que naquele mesmo instante em algum lugar, não muito longe dali, o pessoal do forró estava intrigado com o discurso sobre bichinhos de pelúcia feito por um menino de quatro anos troca-letras e quase sem dentes. Quando cheguei em casa ela já estava lá. Curiosa pediu para ver o vídeo. Juntos, assistimos do passarinho ao forró. Ela, perplexa, apenas repetia “apagaram o nosso passado! apagaram o nosso passado!”. Alguns dias depois, tivemos que procurar uns documentos. Reviramos a casa inteirinha e nada. Achamos apenas umas contas antigas, umas fotos quase sem cor e uns discos de forró.

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