quinta-feira, 26 de abril de 2018

A ficha caiu

(absolutamente baseado em fatos reais)

Meados dos anos 1990.
Dia 1
Mudamos de casa e o número do nosso telefone fixo mudou também.
Celulares eram coisas raras nestes tempos e podíamos ficar dias sem telefone até resolverem instalar a nova linha.
Dia 2
O novo telefone toca, L. atende e ouve do outro lado:
– Olha, ligaram daí e não deu tempo de atender. Estou retornando.
– Ninguém ligou para você – L. retrucou secamente – aliás, como você sabe que ligaram daqui da minha casa?
– O meu celular tem um visorzinho que mostra o número de quem ligou – J. responde constrangida.
– Ah, tá bom, tá bom – L. sem entender nada e desligando – tchau!
Dia 6
Trim, trim. L. atende e mais uma vez ouve:
– Olha – J. pisando em ovos – ligaram novamente daí da sua casa para o meu celular... 
– Você tá louca?! – L. indignada – Só tem eu aqui em casa e nem toquei no telefone.
– Mas meu celular mostra o número! Qual o seu nome?
– L. por quê? Pra que você quer saber? E qual o seu?
– J.
L. desliga abruptamente o telefone.
Dia 7
O telefone celular de J. começa a vibrar. É aquele número de novo. Desta vez ela não vai deixar passar; pega o aparelho com faca nos dentes e luvas de boxe nas mãos:
– Alô!
– Oi J., tudo bem?
Silêncio sepulcral do outro lado da linha.
– J. você tá aí? – L. insiste – Não tô te ouvindo. Alô, J. alô, alô...
– Então é você? – J. volta ao aparelho atônita.
– Claro! Quem você pensou que fosse?
A ficha caiu... e para ambas. J. e L. são irmãs. Ah! E têm vozes praticamente idênticas.
J. e L. não gostam muito de máquinas. Sempre optaram pelo analógico em tudo. Preferem lápis a lapiseira; controle remoto nem pensar. Trocar de aparelho celular? Uma tortura ter de aprender tudo de novo. Tudo aquilo que tenha botões, e que não seja roupa, as perturba.
Na semana passada, havia uma ligação perdida no aparelho de J.:
– Olha, ligaram daí e não deu tempo de atender. Estou retornando...


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