sexta-feira, 13 de abril de 2018

O diário

Se tem uma coisa que sempre quis ler – na íntegra – foi o diário dela. Quando nos casamos, um monte de caixas velhas e desiguais abarrotaram o meu armário. “Olha, você quase não tem roupa e eu preciso de espaço...”, o que eu poderia dizer? “Só que nem pense em abrir qualquer uma dessas caixas!”, disse com um sorriso que exibia faca nos dentes. Tive de me contentar com duas gavetas e menos de um quarto de cabides. O tempo foi passando e diversas vezes a vi consultando os cadernos. Uma espécie de Google da vida dela. Se queria lembrar de quando a amiga “x” ofendeu a amiga “y” ou da falta de companheirismo de “z” em determinada viagem, lá estava ela deitada sobre a cama com uma dezena de cadernos abertos numa pesquisa de fazer inveja a qualquer acadêmico. O problema é que a pesquisa inicial a levava a ler outras coisas e quando percebia já havia passado metade do dia redesvendando a sua pré-adolescência. Uma Guerra e Paz paulistana da década de 1980. Escrevi acima que gostaria de ler na íntegra, pois, sim, esporadicamente ela libera alguns trechos previamente analisados. Tenho a clara impressão de que a ditadura já liberou mais trechos do que ela para mim. Fazer o quê?! Normalmente são passagens sem graça, cores em tons pasteis. A leitura é sempre acompanhada – vigiada – de perto, se faço menção ao mínimo gesto de virar uma página, imediatamente sua mão cai tal qual bigorna sobre o caderno. Ela pede que eu me retire e neste meu período de ausência imagino que ela vai emitir uma guia para eu pagar no banco e carimbar em quatro vias e só assim liberar o resto da leitura. Mas nem sempre sou chamado de volta e a leitura para naquele ponto. O máximo de emoção que consegui arrancar do diário foi o seu amor platônico por um menino da segunda série do primário. E a maior proeza foi conseguir ler, quase à base de suborno, a passagem de quando nos conhecemos. Até hoje acho que ela forjou as páginas já sabendo de antemão de que um dia teria de liberar a leitura para mim. As páginas reais devem estar escondidas em um diário ainda mais secreto, guardado fora da minha casa. O trecho não traz nada, é insípido, parece mais um boletim de ocorrência do que o início de uma história de amor. Mas de uns tempos para cá, uma ficha caiu. Notei que o número de caixas jamais cresceu desde o dia que entraram aqui. Pensei que talvez ela passou dos cadernos para o computador, mas nunca a vi digitando nada que não fosse trabalho. E, realmente, nunca a vi escrevendo nada em caderno algum. “Ué, você parou de escrever o seu diário?”, deu de ombros e me respondeu com a naturalidade de uma escovação de dentes “Depois que fomos morar juntos não quis mais escrever...”, saiu andando, sem me dar chance de continuar a conversa. De alguma forma acho que ela tem feito de mim nestes anos todos uma espécie de “seu diário”.

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