terça-feira, 3 de abril de 2018

Fake memories

Sempre pude me orgulhar da minha memória. Desde pequeno, guardava na cabeça os fatos e as situações em que estava presente. Podia ser qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Números de telefone, era só discar – isso mesmo, antes a gente discava no aparelho –, e pronto! Estava arquivado. Datas e aniversários, confesso, não eram o meu forte.
Nos cinco anos da faculdade, só um mísero caderno, no qual anotava o estritamente necessário, o resto confiava à minha memória. Uma das poucas coisas que registrei foi uma sugestão de ar condicionado natural milenar presente até hoje em casas do Irã. Ainda me lembro da aula e até da minha anotação no caderno. Gostava mesmo era de prestar atenção nos pequenos detalhes. Da entonação de voz dos professores à quantidade de cigarros que eles fumavam em plena sala de aula. Numa delas, de quase duas horas, um professor fumou onze cigarros; acendia um no outro.
Tudo, absolutamente tudo, era combustível para a minha memória. Não fazia de propósito, simplesmente guardava as coisas, fossem elas importantes ou não. Com o tempo, essa minha habilidade ganhou notoriedade entre os amigos. No início, os mais próximos vinham apenas conferir algum fato ou dúvida. Coisas simples: se fulano chegou a ir com a gente para um show ou se a tal moça do oitavo era do décimo ou do quinto andar. Eu era uma espécie de caderninho de anotações ambulante para eles. Depois, virei um pendrive, o qual podia ser conectado, presencialmente, é claro, a qualquer história que achavam que eu havia participado. De jogos de futebol a pendências, como uma conta de pizzaria em aberto e que até hoje não havia sido paga. Finalmente, percebi que fui elevado à condição de nuvem. Não precisava mais estar presente. Era convocado a qualquer momento e em qualquer lugar do planeta. Certa madrugada, recebi uma mensagem de um amigo que estava em reunião na Austrália. Queria lembrar, a qualquer custo, porque que acabaram repentinamente com a sua própria festa de aniversário de sete anos e nem esperaram apagar as velinhas. Segundo ele, era importantíssimo saber disso para aquela reunião. Era assim, confiavam mais em mim para lembrar da vida deles.
Ultimamente, notei que tenho falhado um pouquinho. Um amigo me ligou e conversa vai, conversa vem, lembrei-me de uma viagem em que o seu carro quebrou e voltamos todos para casa de guincho, foi uma aventura! Ele não só “se lembrou”, como disse quem foi dentro do carro e quem foi na cabine do guincho. Ao chegar em casa, toda a história veio à tona na minha cabeça. Além dele não ter feito esta viagem, ele nem sequer tinha carro na época. Mas quem vai duvidar da minha memória? A partir daquele dia, tenho lembrado de tantos outros jogos que assistimos, de tantas outras festas que entramos sem ter sido convidados e até de provas que colamos juntos. Resolvi não só trocar fatos como inventar histórias bacanas. Notei que resgatar coisas interessantes do passado deixa as pessoas mais felizes e leves... alto astral de verdade! Afinal, não dizem por aí que recordar é viver?
Mas, do que estávamos falando, mesmo?


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